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segunda-feira, 6 de março de 2017

Professor relata saga para ensinar na zona rural de Santana do Acaraú


Meu trabalho é uma grande aventura...
Por Paulo Roberto Sales Neto – Professor.
Especialmente hoje (6/03), foi quase participar de um “Rally” para chegar ao Distrito de Baixa-Fria, distante 18km da sede, onde sou professor de Ciências Humanas no período vespertino. Em virtude do período invernoso (que bom!!!), as estradas estão cada vez piores. Há trechos que é quase impossível passar, pois a água dos riachos e córregos só faltam entrar no escapamento da moto, aí já viu... o motor pode ir para o ‘beleleu’. Hoje tive que mudar de rota, o meu caminho original estava impossível de passar, essa nova rota aumentou em mais alguns km meu percurso.
Não quero aqui criar responsabilidade para o atual gestor municipal, mas quero dizer que é sim, culpa e responsabilidade do ESTADO, enquanto instituição. A realidade que vivenciamos atualmente na educação de Santana do Acaraú é resultado de longos anos de falta de compromisso com a educação. Se tem alguém no municipio que ainda não pode ser responsabilizado por isso, é o atual prefeito, pois governa há três meses. No entanto, ele pode fazer a diferença começando a mudar alguma coisa.
Em um município bem próximo ao nosso, Meruoca, a grande maioria dos acessos à zona rural é asfaltada (isso mesmo, asfaltadas!!!) enquanto aqui, apenas a avenida por onde passa a CE 178 tem asfalto. E vejam que se trata de uma serra, onde os terrenos são bem mais acidentados que os nossos, e onde, com certeza, os gastos foram bem maiores. O que explica lá ter bons acessos e aqui temos verdadeiras trilhas para prática de esportes radicais?
Santana do Acaraú tem um dos piores (senão o pior índice) de educação da CREDE 6 e possivelmente continuará tendo, pois com as condições que trabalho (e as estradas de acessos as escolas são ferramentas de trabalho sim) vamos continuar oferecendo pouco aos nossos alunos. Não por que queremos, mas porque as condições não nos permitem. O cansaço provocado pelas longas viagens poderia ser abreviado com acessos melhores. Não tenho mais a mesma disposição que tinha para estudar. Minha vida intelectual caiu pela metade. Quem perde com isso? Eu e meus alunos.
Professor Paulo Roberto Sales em sala de aula na escola de Baixa-Fria
Alguém poderá dizer: você está reclamando porque vem de uma escola profissional. Sim, passei quase cinco anos em uma escola profissional. A realidade que encontrei lá em termos de infraestrutura e recursos didáticos deveria estar disponível em todas as outras escolas do município. Porque os alunos de lá seriam melhores que os demais? Pagamos altos impostos e certamente seria possível ao ESTADO, bancar esse nível de educação, se parte desse dinheiro não fosse motivo de manchetes quase que diariamente nas páginas policiais. 
Ficamos amedrontados quando o céu escurece dando sinais de chuva, porque não sabemos se será possível chegar à escola ou em casa. Os horários das aulas mudaram suas rotinas. Algumas escolas estão terminando as aulas na hora do intervalo, porque muitos alunos e professores deixaram de ir à aula por inúmeros motivos ou terminam antes do horário senão os professores podem ficar ilhados. No verão a poeira é a nossa maior inimiga, causando prejuízos à maior ferramenta de trabalho do professor: a voz. Nem parece que estamos em pleno século XXI. 
Essa história de meritocracia é conversa para “boi dormir”. E ainda tem gente que defende esse discurso (embora não aceite essa explicação para justificar muitas mazelas sociais, escuto e respeito quem assim pensa). Esses professores e esses alunos terão mais dificuldades de obterem as mesmas chances de competir com os de outras realidades mais favoráveis, sejam de escolas públicas ou privadas.
Precisamos alavancar os índices da educação do nosso município. Precisamos sim e com urgência. Mas não podemos perder de vista a qualidade do trabalho, que é dado diariamente a nós professores. Não fazemos mágica e nem milagres. E o que pode ser feito para melhorar essa realidade? Pensar nesses problemas e em vários outros, e buscar a partir de agora a solução. Quem sabe em meia década podemos começar a colher os frutos das indagações que plantamos hoje. Decerto só poderemos colher se a terra for boa e tivermos boas ferramentas para se trabalhar, já que as sementes estão em nossas mãos.

Santana do Acaraú/CE, 06/03/2017.

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